SUBJETIVIDADE ARTIFICIAL, REDES SOCIAIS E ALGUNS EFEITOS PSIQUICOS
Publicado em: 11/01/2026SUBJETIVIDADE ARTIFICIAL, REDES SOCIAIS E ALGUNS EFEITOS PSÍQUICOS
Subjetividade é o mundo interno de uma pessoa, formada por sentimentos, pensamentos, valores, desejos e percepções únicas, que moldam sua forma de ver e reagir ao mundo.
A subjetividade artificial, tal como formulada por Simonetti, nomeia um modo contemporâneo de constituição de sujeito em que a experiência de si já não nasce prioritariamente do conflito psíquico, do desejo e da alteridade, mas da adaptação a dispositivos técnicos, métricas e performances sociais. O sujeito passa a se organizar menos a partir da sua história e mais a partir de modelos externos de funcionamento, como se fosse um software em permanente atualização.
Nas redes sociais, essa subjetividade artificial encontra seu habitat perfeito. O eu deixa de ser vivido e passa a ser exibido, calculado e editado. A pergunta inconsciente “quem sou eu para o outro? ”, central na constituição subjetiva, é substituída por “como estou performando para o algoritmo? ”. Likes, visualizações, seguidores e engajamento funcionam como significantes-mestres, produzindo uma forma de reconhecimento rápido, quantificável e aparentemente objetivo. O sujeito não precisa mais sustentar a falta, a dúvida, a ambivalência, basta ajustar sua imagem para obter retorno.
O problema é que essa lógica não trabalha com o desejo, mas com a otimização da aparência. Enquanto o desejo é estruturado pela falta, por aquilo que nunca se completa, a performance digital exige atratividade. Cria-se então um eu ideal permanentemente em cena: feliz, produtivo, bonito, interessante e resiliente. Um eu sem rachaduras, sem tempo morto, sem contradições. Essa versão idealizada passa a funcionar como um supereu contemporâneo, exigindo que o sujeito esteja sempre “no melhor de si”.
É aí que a subjetividade se torna artificial: não porque seja falsa no sentido moral, mas porque deixa de ser atravessada pelo inconsciente. Ela se organiza por protocolos: o que postar, quando postar, como falar, como parecer. O sujeito já não pergunta o que quer, mas o que funciona. E quando o que funciona substitui o que se deseja, o mal-estar aparece sob a forma de vazio, ansiedade, sensação de fraude e exaustão.
No campo psicanalítico, poderíamos dizer que o Imaginário das redes (imagens de sucesso, corpos perfeitos, vidas editadas) hipertrofia-se; enquanto o Real (o impossível, o limite, a castração, a solidão, a morte, a falha) é recalcado, apagado ou transformado em espetáculo. Mas o Real retorna na depressão, nos ataques de pânico, na sensação de não ser nada quando não se está sendo visto.
Assim, o que é Real é a nossa condição humana: finita, faltante, atravessada pelo desejo, pelo conflito, pelo tempo e pelo corpo. O que é Imaginário é a promessa de completude, de controle absoluto da própria imagem, de felicidade constante e reconhecimento garantido. O que idealizamos é um eu sem falta, sem angústia, sem dependência do outro. O que é possível é um sujeito que falha, que deseja, que não sabe tudo sobre si, que precisa do outro, e que constrói sua singularidade justamente a partir dessas fissuras.
A subjetividade artificial tenta apagar essas fissuras. A psicanálise, ao contrário, aposta que é nelas que algo verdadeiramente vivo pode existir.
Nas redes sociais não vemos pessoas tentando ser felizes, vemos pessoas felizes. Não vemos recortes, vemos vidas. O filtro não se anuncia como filtro, ele se oferece como rosto. A edição não se mostra como edição, ela se passa por espontaneidade.
No palco das redes tudo é artificial: a imagem, o texto, o tempo, o humor. Mas o efeito psíquico é absolutamente real. O sujeito compara sua vida vivida (com olheiras, falhas, dias sem sentido, contradições) com uma vida imaginariamente perfeita, contínua e limpa. O resultado é um tipo específico de sofrimento contemporâneo: “sou menos do que os outros”, mesmo quando nada de concreto sustenta isso.
Se a vida fosse como publicamos, não haveria cansaço, nem tédio, nem ambivalência, nem dias ruins. Mas uma vida assim não seria humana. O que a rede propõe como ideal é um sujeito sem Real: sem corpo que envelhece, sem inconsciente que tropeça, sem tempo que passa, sem perdas. É uma vida sem morte, e, por isso mesmo, sem desejo.
Talvez o gesto mais subversivo hoje seja sustentar a própria condição humana: postar menos e sentir mais; aparecer menos e existir mais; aceitar que a vida real não cabe num feed.
Não porque a vida real seja feia, mas porque ela é viva.
Nas redes, as curtidas e os comentários não são apenas reações sociais. Eles funcionam como dispositivos de constituição do eu. Na lógica da subjetividade artificial, eles ocupam o lugar que, na vida psíquica pertence ao olhar do Outro.
Na constituição psíquica clássica, o sujeito se pergunta, de modo inconsciente: “O que o Outro quer de mim?”. Nas redes, essa pergunta é traduzida em números e respostas rápidas: “Quantos me quiseram?”, “Quantos me viram?”, “Quantos me aprovaram?”
A curtida opera como um micro sinal de amor. O comentário como um micro reconhecimento simbólico. Juntos, eles produzem uma economia libidinal baseada na avaliação constante. O sujeito aprende, pouco a pouco, a desejar não aquilo que atravessa, mas aquilo que gera resposta. Posta-se o que dá engajamento, não o que tem verdade.
Isso tem alguns efeitos centrais:
Primeiro, produz a dependência do olhar. O eu passa a existir na medida em que é visto, comentado, curtido. Quando não há retorno, instala-se um vazio semelhante ao da retirada de amor: angústia, sensação de invisibilidade, queda narcísica. Não é raro ouvir de pacientes dizendo que se sentem “ninguém” quando postam algo e não recebem resposta.
Segundo, cria-se uma confusão entre valor e visibilidade. Aquilo que circula mais parece valer mais. O que não performa, não aparece. O sujeito passa a duvidar da própria experiência se ela não é validada publicamente. É um deslocamento grave: o critério de realidade deixa de ser interno e passa a ser algorítmico.
Terceiro, as curtidas reforçam o falso self. O sujeito aprende quais versões de si são premiadas e começa a repetir essas versões, mesmo que elas não o representem. Forma-se um eu eficiente, mas esvaziado. Quanto mais a imagem funciona, mais o sujeito pode se sentir desconectado de si.
Quarto, instala-se um regime superegoico cruel: “Se os outros conseguem ser assim, por que você não?”
O feed vira um desfile permanente de ideais inalcançáveis. As curtidas que os outros recebem tornam-se uma acusação silenciosa contra a própria insuficiência.
No fundo, as curtidas prometem pertencimento, mas entregam comparação. Prometem reconhecimento, mas produzem ansiedade. Prometem laço, mas organizam uma solidão competitiva.
Na subjetividade artificial, o sujeito não pergunta mais “o que eu desejo?”, mas “o que performa?”. E quando o desejo é substituído pela performance, o eu se torna visível, mas cada vez menos habitável.
Teria uma forma saudável de usar as redes? Sim, mas ela vai na contramão da lógica das redes, pois exige um posicionamento subjetivo.
Ansiedade e depressão não surgem apenas porque usamos as redes, mas porque elas nos colocam num regime psíquico especifico: comparação permanente, exposição constante e exigência de desempenho do eu. A mente humana não foi feita para ser avaliada o tempo todo. O psiquismo também precisa de invisibilidade, silêncio, de não-dito, de tempo morto. As redes invadem justamente esses lugares.
As redes não adoecem por si. Elas adoecem quando passam a funcionar como espelho absoluto. Um espelho que não devolve o sujeito, só sua imagem idealizada.
Usar as redes de forma saudável é poder olhar esse espelho e ainda saber quem você é quando ele está desligado.
FONTE:
Alfredo Simonetti. GOZAI POR NÓS: ESTUDOS SOBRE A SUBJETIVIDADE ARTIFICIAL, 2023.