PSICOTERAPIA COM PESSOAS IDOSAS

Publicado em: 22/06/2026

PSICOTERAPIA COM PESSOAS IDOSAS

 

“Na análise só existe um sujeito, o sujeito do inconsciente, e este não envelhece.” (Angela Mucida)

 

Envelhecer é atravessar muitas mudanças. Algumas são visíveis: os cabelos que embranquecem, o corpo que pede mais cuidado, o ritmo que desacelera. Outras são silenciosas: a saída dos filhos de casa, a aposentadoria, o divórcio, a viuvez, a perda de amigos, às vezes a própria saúde. São perdas que não aparecem em fotografias, mas aparecem na alma.

Vivemos também em um tempo em que a tecnologia ocupa grande parte da atenção dos mais jovens. Celulares, redes sociais, mensagens rápidas… e, muitas vezes, o idoso se vê ao lado, mas não incluído. Está na mesma sala, mas não no mesmo mundo. Isso pode gerar uma solidão profunda, daquelas que não se resolvem apenas com companhia física.

Muitos pensam que análise é “coisa para jovem” ou que “já passou da idade” de falar sobre si. Mas a vida psíquica não se aposenta. Enquanto há desejo, enquanto há memória, enquanto há angústia, há o que elaborar.

A análise com pessoas idosas é um espaço de dignidade e escuta. Um lugar onde é possível falar sobre:

- A saudade do que foi,

- O luto pelas perdas,

- Um silêncio que pesa,

- As frustrações, mágoas ou ressentimentos que ficaram guardadas,

- As perguntas que ainda não foram respondidas,

- Um remorso ou uma culpa que aprisiona,

- Os medos que aparecem com o tempo,

- E também os desejos que ainda insistem em existir...

Muitas vezes, ao longo da vida, não houve tempo para se escutar. Foi preciso trabalhar, cuidar dos filhos, sustentar a casa, enfrentar dificuldades. A análise pode ser, finalmente, um tempo seu.

Não se trata de mudar o passado. Mas de dar sentido a ele.

Falar sobre as perdas não as apaga, mas as humaniza. Elaborar a aposentadoria pode ajudar a reconstruir uma identidade para além do trabalho. Falar sobre a viuvez pode permitir que o amor vivido encontre um novo lugar na memória. Dividir a solidão já é um modo de não estar tão só.

A análise não exige juventude. Exige disposição para falar e ser escutado.

E talvez, depois de tantos anos dedicados aos outros, seja hora de dedicar um espaço a si mesmo.

Nunca é tarde para se compreender melhor. Nunca é tarde para aliviar angústias. Nunca é tarde para transformar silêncio em palavra.

Envelhecer não é apenas acumular anos. É também se deparar com aquilo que foi vivido, e com aquilo que não foi.

Ao acompanhar pessoas no fim da vida, a enfermeira australiana Bronnie Ware registrou cinco arrependimentos que apareciam com frequência entre pacientes terminais. Eles não falavam apenas de erros concretos, mas de escolhas adiadas, silêncios mantidos, desejos abafados.

Os cinco arrependimentos mais comuns foram:

“Eu gostaria de ter tido coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim. ”

“Eu gostaria de não ter trabalhado tanto. ”

“Eu gostaria de ter tido coragem de expressar meus sentimentos. ”

“Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos. ”

“Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz. ”

Uma pessoa pode não ter vivido exatamente como gostaria. Pode ter trabalhado demais, amado de menos, silenciado sentimentos. Mas pode, ainda hoje, dar novo sentido a essas escolhas. Pode perdoar a si mesma. Pode retomar laços. Pode dizer o que nunca disse. Pode se permitir pequenas alegrias que antes pareciam proibidas.

Enquanto há vida psíquica, há possibilidade de transformação.

A velhice não é apenas o tempo das perdas. Pode ser também o tempo da verdade. E a análise pode ser o espaço onde essa verdade encontra escuta, sem pressa, sem julgamento, com respeito à história inteira de alguém.

 

REFERÊNCIA

WARE, BRONNIE. Antes de partir: os 5 principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer. Geração Editorial, 2017.

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