A PSICOTERAPIA E A PSIQUIATRIA DIANTE DO SOFRIMENTO

Publicado em: 03/03/2026

A PSICOTERAPIA E A PSIQUIATRIA DIANTE DO SOFRIMENTO 

 

Ao colocarmos em diálogo “O que os psiquiatras não te contam”, de Juliana Belo Diniz, “Pílulas e Palavras”, de Alfredo Simonetti, e “Sofrimento não é doença”, de Daniel Martins de Barros, emerge um eixo comum: a necessidade de diferenciar sofrimento psíquico de transtorno mental e, a partir dessa distinção, reposicionar a psicoterapia como espaço ético de elaboração.

Os três autores, cada um a seu modo, tencionam a tendência contemporânea de transformar dor em diagnóstico e diagnóstico em prescrição. Mas fazem isso por caminhos diferentes.

Juliana Belo Diniz revela os bastidores da psiquiatria atual: a ampliação das categorias diagnósticas, a influência dos manuais como a série Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, e a naturalização da medicação como resposta quase automática ao sofrimento. Seu ponto central não é negar a eficácia dos psicofármacos, mas denunciar o risco de que a medicalização substitua a escuta. Quando tristeza, luto, angústia ou crises existenciais recebem rapidamente um rótulo, há um encurtamento do tempo subjetivo.

Alfredo Simonetti, em Pílulas e Palavras, propõe um equilíbrio mais conciliador: a pílula pode ser necessária, mas a palavra é insubstituível. Ele enfatiza que o medicamento estabiliza, mas não elabora. Pode reduzir sintomas, mas não produz sentido. A psicoterapia, nesse contexto, não é complementar no sentido ornamental, ela é estruturante. A palavra organiza a experiência, reinscreve o sofrimento na história do sujeito e possibilita transformação que não se reduz à remissão sintomática.

Daniel Martins de Barros introduz uma distinção conceitual crucial: sofrimento é parte da condição humana; doença é uma categoria clínica que implica prejuízo funcional significativo, risco ou perda de autonomia. Seu argumento protege o campo clínico de dois extremos: a patologização excessiva e a romantização da dor. Ele lembra que há sofrimentos que exigem intervenção médica, mas há muitos outros que pedem escuta, tempo e elaboração.

Quando articulamos essas três perspectivas com a psicoterapia, especialmente a psicoterapia de orientação psicanalítica, algumas consequências clínicas aparecem:

 

O sofrimento como linguagem

Nem toda angústia é disfunção neuroquímica. Muitas vezes é conflito, luto, impasse identificatório, crise de desejo. A psicoterapia oferece o espaço onde o sintoma pode ser interrogado, não apenas suprimido.

 

A medicação como recurso, não como resposta total

Nos três livros há um reconhecimento de que o psicofármaco tem lugar, sobretudo quando há desorganização importante, risco ou incapacidade funcional. Porém, sem trabalho psíquico, o risco é que o sofrimento retorne sob outras formas.

 

O diagnóstico não esgota o sujeito

Um código do DSM descreve sintomas; não explica a singularidade. A psicoterapia recoloca o sujeito antes da categoria.

 

Tempo subjetivo versus tempo produtivo

A cultura contemporânea valoriza rapidez e desempenho. A psicoterapia trabalha na contramão: sustenta o tempo da elaboração. Essa diferença é política e ética.

 

Há, portanto, uma convergência silenciosa entre os três autores: todos defendem que a clínica em saúde mental exige discernimento. Nem negar a biologia, nem absolutizá-la. Nem patologizar tudo, nem negligenciar quadros graves.

No fundo, o que os três livros afirmam, ainda que com tonalidades diferentes, é que o sofrimento humano não pode ser reduzido a um desequilíbrio químico, mas também não pode ser tratado com ingenuidade. A boa prática clínica está na articulação entre contenção biológica, quando necessária, e elaboração simbólica. Talvez possamos sintetizar assim:

Quando o sofrimento desorganiza, a pílula pode sustentar;

Quando o sofrimento fala, a palavra deve escutar;

Quando o sofrimento é confundido com doença, o diagnóstico pode empobrecer;

Quando a doença é negada em nome da subjetividade, o cuidado pode falhar.

 

A psicoterapia, nesse cenário, não é um acessório da psiquiatria. Ela é o espaço onde o sofrimento deixa de ser apenas sintoma e volta a ser experiência, singularidade, história, desejo e conflito. ?

 

REFERÊNCIAS:

Barros, Daniel Martins de. SOFRIMENTO NÃO É DOENÇA: NEM TODAS AS DORES PRECISAM DE REMÉDIO, MAS TODAS MERECEM CUIDADO. Editora Sextante, 2025.

Diniz, Juliana Belo. O QUE OS PSIQUIATRAS NÃO TE CONTAM. Fósforo Editora, 2025.

Simonetti, Alfredo. PÍLULAS E PALAVRAS: A PSIQUIATRIA E O PACIENTE CONTEMPORÂNEO. Editora Novo século, 2023. 

Voltar
WhatsApp